domingo, 8 de fevereiro de 2009

Eu tenho medo de Alices Braga

Quando li o Ensaio Sobre a Cegueira, achei o livro fantastico. Ainda vivia numa fase em que queria devorar os livros, e lia tudo muito rapido. Como se o que importasse fosse o tempo... Mas enfim, isto e um outro papo.

Acontece que agora vi o filme. E agora siginifica neste momento da minha vida, da minha historia.

Em uma cena minha mente congelou e meu estomago embrulhou, e no dia seguinte foi dificil almocar. E ate agora, enquanto escrevo, sinto o gosto do enjou na boca. Sem tanto escatologismos assim, acontece que Julliane Moore eh* a unica que ve. Ela eh casada com um medico que ficou cego. Quando a policia vem leva-lo para a quarentena, ela finge q nao ve mais e vai junto com ele. Era impossivel enxergar sem ele. Acontece que la pelas tantas do filme, quando a cegueira ja contaminou um monte de gente, e eles estao presos numa especie de leprosario, Julliane Moore assisti ao seu marido transando com a Alice Braga. E pra mim aquilo foi um soco no estomago.

No tempo em que ficaram confinados, sujos, sem comida, entregues a uma vida quase animal, Julliane Moore assumiu o papel de cuidar de todos. Inclusive do marido. De certa forma, ela saiu do papel de mulher, pois era necessario, talvez, des-sexualizar as cenas, para que ela pudesse, literalmente, limpar a bunda do seu marido. E ele fala isto a ela, pois novamente, estao falando do olhar... ele nao aguenta mais ser olhado por ela como objeto - no devir funcional que ela assume -e nao como homem; e nem aguenta nao se ver refletido como homem nos olhos dela, e ja nao consegue mais ve-la como mulher. Ela, por sua vez, faz o que eh possivel e necessario, ao mesmo tempo que, de certo modo, eh invadida sutilmente pelo gozo de ser a unica que possui algo raro, a unica que nao eh fragil - ao menos ela pensa assim. E ela so se da conta de todas essas coisas, do quao cega ela tb estava, quando assisti a ele comendo, avido, a Alice Braga.

Mas se vc analisar bem o filme, ela ja nao o via antes. Na unica cena em que eles estao enxergando, ele fala com ela e ela nao da muita atencao. Ela nao olhava muito pra ele. Olhava assim, de relance, mas sem interesse genuino nele, nas coisas dele, no universo dele, nem parecia conseguir se deixar invadir por ele, por seu olhar... olhava sem admiracao. Ela olhava de longe. E talvez, sem cegueira, ele tb tivesse comido uma Alice Braga por ai. E sabe, nem sei se ele desejava a Alice Braga. Ele desejava, estava desesperado, por ser visto como homem por uma mulher. A desvalia do desejo mora aqui, pra mim. Quando nao me sinto sendo olhada como mulher. Bom, Alice, mesmo cega, olhou pra ele como homem - pq a gente olha com bem mais coisas do q com os olhos, certo? - e ele foi seduzido por sentir-se homem nos olhos dela. E dai convocado. E dai, bom, dai foi so um passo para a tal cena que daria noh no estomago de qq pessoa q tem uma "relacao estavel" (detesto este nome) com alguem.

Fiquei pensando, com esta cena, sobre o desejo. E sobre como se manter mulher numa relacao. Como nao assumir e se deixar tomar por completo pelo devir dos cuidados, maternal, assexuado, ao qual somos convidadas por nossos parceiros, e por nos mesmas - na tentacao paradoxal do poder sobre o outro.

Como manter e blindar este local sagrado, aonde os amantes sao amantes, aonde os desejos moram. Como cultivar isto. Pq depois de anos juntos, sem hipocresia romantica, as coisas que despertavam desejo no outro e em mim, ja se tornaram, muitas vezes, cotidianas - te vejo nua, te tenho nua ao alcance da minha mao, que penso, talvez amanha, agora nao, tenho sono, tenho fome... - a urgencia nao eh mais a mesma. Mesmo. E acho q isto nao eh um fatalismo meu, acho q eh natural das relacoes estaveis. Cultivar o desejo eh uma arte. Manter-se desajavel outra maior ainda - e isto nada tem a ver com a barriga tanquinho.

Julliane Moore nao deixou de ser desejavel. Ela colocou o seu desejo de lado, pq tb nao se sentia mulher naquele momento. Ver tudo aquilo precisava de uma cegueira. Para si mesma, talvez. Transformar-se em assexuada, talvez. E ela, que ja nao admirava muito a ele, agora o admirava menos ainda. Tinha outras coisas para olhar.

Talvez a admiracao seja uma chave importante do desejo, na manutencao dele... ao menos no meu, sei la.

Lembra do primeiro encontro? Enquanto ele falava, e vc o achava fantastico? E pensava que poderia ouvir ele falar pelo resto da noite?? Nossa, que cara inteligente. E quando ele sorria, vc achava fantastico. As piadas sem graca, o gosto para musica, as comidas, as bobagens... lembra? Agora faz comigo um exercicio maluco, e tenta se ver nos olhos dele. Ele fala e olha pra vc, e o que ele ve? Um olhar absolutamente entregue a ele, encantado, talvez brilhando... e ele vai se alimentando deste teu olhar ai, e fala mais, pq acha delicioso q vc o ache delicioso. Entao ele cresce, se sente o homem mais incrivel do planeta, pq vc esta ali, absorta, entregue ao que ele diz, aos movimentos dele. Ele te penetra e vc esta absolutamente receptivel, sem nem perceber. E dai o mesmo vale para ele olhando vc. Vc le nos olhos dele que ele te desperia ali. Vc acha ele abusado, quando se da conta que ele nem esta ligando para o q vc fala, esta vidrado na sua boca. Vc acha ele abusado, mas se acha a mulher mais gostosa do planeta. Na verdade vc tb, enquanto ele falava sobre as andacas dele pelo mundo, estava imaginando quando ele iria eh andar por vc. Mas nao tem importancia isto. Pq vc se ve nos olhos dele como a mulher mais gostosa do planeta, e ele nos seus. E tudo isto acontece assim, naturalmente. Num primeiro encontro incrivel.

E depois, quando o tempo passa... vem a intimidade, e vc passa a ver que tem la umas coisas nao muito admiraveis nele. E ele em vc. E dai, como faz pra manter o desejo? O olhar? Este lugar aonde vcs sao amantes? Como?

F.L. - tenho medo de Alices Bragas


*eh com h pra vcs saberem que eh um "eh" e nao "e" - sim, estou no notebook.

Um comentário:

Mariana disse...

tenho pensado nisso com freqüência. e quando as rosas, mesmo num amor delicado, viram um efeite costumeiro, posto que ao olhá-las não enxergamos mais o interior das pétalas, onde vivem segredos e fantasias, mas sim a segurança de ter sua beleza diante dos olhos?