quarta-feira, 16 de junho de 2010

É das cores que ela ia sentir mais saudades

Chave prateada. Ignição branca ladeada de preto. Um giro, e a partida. Chaveiro de coração tiquetaqueando no painel. Acelera. Fumaça cinza. Adeus. É isso.

Luzes apagadas pela cidade. Quem disse que ela nunca dorme? Tudo preto e branco. É tarde.

Diminui a velocidade, para na faixa de pedestres e dá passagem para o adeus vestido de negro.

Os macarons coloridos do Paris 6, o manjericão da Marguerita, a tinta de lula do Viccolo Nostro, a transparência do DOM em que nunca foi. O painel dos OsGêmeos na 23. O verde burguês do Panamby. Laranja e cinza Jardim Ângela. Cinza céu. Cinza terra. Cinza terra pontilhado de verão. Cinza céu rasgado de fim de tarde de outono. Cinza. Ponto.

Ônibus azul. Um ou outro. Suor pingando cansaço. Fedor desodorante-pobreza. Bolo de fubá amarelinho, chá, café, chocolate bem escuro, por favor. R$ 1,50 cada. Elevador platinado, luz azul, porta abrindo. Mais um café, de maquina agora, tirado ali. Marrom aguado.

Casamento. Loiro, branquelo, boca mole, pele seca, dente amarelo. Todo seco. Oco. Barriga bege jazendo no sofá. Cueca bege, murcha sobre a cama. Cerquinha branca, seriado na TV, pizza de R$ 9,90 na sexta à noite. Noite bege. Cerveja Krill, amarela aguada. Um brinde com ele. Coxinha oleosa, bege. Mixuruca.

Dinheiro? Onde? No bolso, na carteira, no banco, cadê? Já? Onde mesmo a Gislaine orientou investir? Posso sacar quando? Dinheiro verde-água-que-se-esvai.

Você deságua em mim, e eu oceano, baby. Dinheiro. No bolso. Na carteira. Em baixo da cama. No carro. Dentro do capô do carro. No fundo falso do armário falso. Nas bonecas da Juliana. No banco não, tá maluco? Dinheiro verde.

Sinal abriu. Acelerou. As cores. Tiras iluminadas de laranja ficando para trás. Pedrinhas para João e Maria nem pensar. As cores, um pasticho agora, tudo misturado em meio as roupas espalhadas pelo porta-malas. As malas. Acelerou antes que as luzes vermelhas e azuis dessem falta dela. As cores, Juliana, que saudades do cabelo amarelo dela que vai dar, deus do céu. Segurou naquela mão grande e negra-coragem. Acelerou antes que a memória pisasse no freio e desse meia volta. Olhos nos olhos pretos dele. Acelerou. Adeus resto.

É isso. É das cores que ela ia sentir mais saudades.



*texto para oficina de criação literária, Poesia, com o Prof. Donizete*
 
Fe Lopes - é das cores que eu também sinto mais saudades.

2 comentários:

Jú Pacheco disse...

Ameeeeeeeeeeei!
Que lindo!!!!!

Sarah Saratonina disse...

Adorei! Parece um filme. Beijos