domingo, 1 de novembro de 2009

Des-PONTECIA

Existem certos encontros que produzem uma sensação de despotência. Todo mundo passa por isto. Você pode até não identificar, mas você passa (ou vai passar). Eu passo. E daí sinto um esvaziamento mesmo. Eu nunca sei mensurar ou explicar exatamente porque, quando, como, mas eu sinto na pele este vazio. De repente, puff. Se esvazia. E é muito violento. Pelo menos comigo.



E quando este vazio aparece e resolve se alocar em mim, eu não fico deprimida. Eu acho tudo chato, sem graça, imbecil, burro, fico com raiva e apática. Cinza. Porque não é um vazio meu, é um vazio vindo de um encontro que foi capaz de produzir esta afetação. Neste sentido não é um encontro vazio, daqueles que não produzem nada. Pelo contrário. Produz um efeito avassalador de vazio. Solidão imensa. Daquelas que parecem jamais ter solução.


As vezes eu sinto isto nos encontros de psicanálise. Acho tudo chato, besta. Acho as pessoas e seus maneirismos um porre. Acho o vocabulário afetado, fechado, soberbo. Acho os comentários repetitivos, burocráticos, sem nenhuma abertura para o novo.

Acho as mulheres e seus sapatos de bico quadrado chatérrimamente iguais – e olha que eu também tenho alguns destes sapatos aí. Os jargões, os papos, os cortes de cabelos modernos, as cores, as roupas, os colares grandes e coloridos, os temas, as conjecturações... tudo isto um amontoado de repetições chatas.


Eu sempre penso, mas ainda não consegui botar em texto esta história, que o fazer clínico esta na mesma direção do fazer artístico. Na quietude do artista em seu processo de criação. Na bohemia das noites mal dormidas. No flerte fronteiriço com a loucura e a depressão - único local possível que penso para nascerem as genialidades. No tesão e no frisson da criação posta em ato. No narcisismo - por que não? Mas sobretudo, na ousadia em ser aquilo que você é. O artista – no meu idílico do que é o artista – é alguém que ousa ser quem é e faz disto sua obra prima. Ousa pintar daquele jeito que ninguém nunca antes pintou. E não porque é ou quer ser genial. Também. Mas simplesmente porque não consegue fazer diferente. Tem que ser daquele jeito. Ousa pensar o diferente. Ousa expor o diferente, apesar das críticas ou paixões que possa despertar. E assim faz nascer a arte. E o encantamento. O artista, neste sentido, é sempre revolucionário e anti-heroi.


Quando encontro um amontoado de gente igual, falando igual, repetindo chavões que nem elas mesmas compreendem, eu me bodeio porque acho que, antes de mais nada, a psicanálise é local de revolução – do analista, do sujeito, da pratica, da teoria, da historia.... A psicanalise nasceu assim, quebrando paradigmas – criando outros, claro – ousando dizer o indizível. Correndo o risco de ser taxada de maluquice, bruxaria e o que mais você quiser dizer. Cheia de teóricos-artistas, que produziram rupturas com sabereres e conhecimentos até então sacralizados. Que ousaram ser loucos. Apaixonados pelas suas disciplinas, tomados por elas, em produções incessantes de conhecimento visceral. Na contra corrente de uma idéia, anti-herois por natureza, com vidas pessoais interessantíssimas, e interesses tão diversos quanto suas produções. Sem medo de dizer as bobagens que fizeram. E com muito medo também, tateando no escuro um sujeito e suas manifestações – neste sentido, todos bem humanos.

F.L. - divagando....

Um comentário:

J.R disse...

Nossaaaa! Que texto!

Amei... Não entendo nada dessas coisas, mas achei tão legal de ler!

Texto gostoso, embora tecnico, gostoso de ler, palavras bonitas colocadas corretamente, claro.

ADOREI.

bjão!!