terça-feira, 3 de junho de 2008

Fim

Então é assim. Adeus. Sem bilhete, telefonema, carta, telegrama. Fim. Desapareceu no ar. Acordou e nada mais foi como ontem. E agora ela ficou ali, só ela e as paredes... até ontem, paredes-roupas-corpos-urgência-sem roupa-paredes-corpos-gelado-suor-enfim. Até ontem. Hoje não mais. Sei lá o que aconteceu. Acabou, foi isto. Sem indícios? Ou foi ela que não se deu conta? Mas, de que importa? O que importa é que agora ela se mantem ali, inerte, olhando o vazio, contemplando as paredes, assistindo a um filme, o filme das paredes. Segue sem expressão. Ali, esperando que, sei lá, de repente, a porta se abra novamente. Quem sabe?, disse sua amiga.
Telefone, toca, será? alô? Será? Amiga. Droga. Amiga-droga. Amiga que liga nesta hora só comprova que não é ele que ligou. Droga. Até aquele instante ainda tinha a esperança [sempre derradeira] de que fosse ele, e que suspirasse ao seu ouvido e lhe dissesse algo. Qualquer coisa. Desde que qualquer coisa fosse "em 5 minutos estarei ai pra você". Veja, não é com. Não foi erro de digitação. É que agora, na altura do campeonato, ela precisa de um pra - pra deixar de estar com este vazio que sentado ao lado dela, lhe faz companhia, assistindo aos filmes exibidos pelas paredes.

domingo, 4 de maio de 2008

Telegrama

Telegrama


O envelope continuava fechado. A carta ainda estava lá dentro, em cima da velha cristaleira. Cecília estava as voltas com o jantar e nem se deu conta que aquele envelope continuava ali, no mesmo lugar.


Hoje era uma noite muito importante na vida dela, amanhã estaria indo pra tão esperada viagem, e para tanto tinha resolvido que faria um jantar de comemoração. Chamou todos os amigos, a família, e decidiu preparar uma despedida. Na cozinha, a tarde inteira, coitada. Mal teve tempo para notar que o carteiro havia passado pela sua casa, deixado a carta debaixo de sua porta e Dna. Maria, a empregada, havia colocado-a em cima da cristaleira.


Ninguém sabia muito bem o que raios Cecília queria com este jantar, na certa achavam que era mais uma das suas festas malucas. Desde que decidiu morar sozinha já tinha feito centenas de jantares e festas naquela casa, os vizinhos nem reclamavam mais, viram que não tinha jeito mesmo. Cecília era assim, intempestiva. Nem ela mesma sabia o que iria fazer nesta viagem, apenas sabia que iria viajar.


Há muitos anos ela tinha este plano na cabeça, tudo muito arquitetado, o que seria de seu futuro. Entrou cedo na faculdade, estudou jornalismo, formada aos 21 anos, conseguiu emprego em uma dessas revistas de fofoca, não era bem o emprego que ela sempre sonhou, mas pagava bem e era isso que neste momento importava. Fez uma matéria sobre o caso de um artista famoso, que estava transando com um jogador de futebol, e daí o salário veio gordo e choveram oportunidades. Tantas que aos 22 Cecília já morava no seu próprio apartamento. Não foi fácil assim, lógico, mas ela batalhou bastante. O carro que o pai tinha dado de presente quando ela fez 18 anos, entrou como parte do pagamento do apartamento, e agora ela voltara a andar de ônibus, o pai não gostou muito de ver o destino que ela tinha dado ao presente, coisas da vida.


Por uns tempos dividiu o apartamento com uma amiga da época da faculdade, daí ela casou e Ciça – como era chamada pelos amigos – acabou ficando sozinha mesmo. O namorado havia sugerido que morassem juntos, mas ela não quis, muito cedo ainda. Isto tudo já tem 2 anos, desde que Ciça deixou a casa dos pais, aceitou aquele emprego, onde conheceu Luiz Eduardo, o namorado, e há 1 semana e meia que ela reservou a passagem pra França.


O que surgiu, de fato foi uma matéria muito boa. O chefe dela na revista queria que ela cobrisse uma premiação em Cannes, e ela aceitou. Era uma coisa rápida, ia durar uma semana apenas. O que Ciça fez foi um acordo, disse pro chefe que faria a matéria, mandaria tudo pela internet e, como não tirava férias desde sabe-se lá deus quando, engrenaria em 1 mês de férias. Ele resistiu, no começo, mas depois acabou cedendo.


Era uma viagem boba, na verdade, seriam apenas as tais merecidas férias. Mas quem disse que precisava durar só um mês?
Cecília sabia que quando contasse pra família seus planos de ficar fora um mês, os pais teriam um chilique. Os amigos dariam aquela força, porque sabiam que ela andava desgostosa da vida, e estava mesmo precisando respirar novos ares, além disto, sabiam o quanto aquele lugar era importante para ela...


O namorado seria um caso a parte. Nunca se sabia o que esperar dele, em alguns momentos era compreensivo, em outros... Foi por isto que Ciça decidiu não contar pra ninguém sobre suas férias. E ela sempre planejou esta viagem, como algo que um dia ainda iria fazer, além de que, isto não era nada demais! Poderia ter ido antes, é verdade, Cecília vem de uma família rica, só que queria viajar pela suas próprias pernas, e agora, era a hora.


Aliás, estava quase na hora dos convidados chegarem. Engraçado que ela tinha certeza que a mãe apareceria em casa com algum prato, como era de costume. Até hoje ela ainda não confiava em ver a filha na cozinha. O pai viria, reclamando que nunca tem lugar pra parar o carro neste prédio, tomaria um whisky com gelo, e talvez conversaria com os demais convidados. A mãe, depois de deixar a comida na cozinha, iria dar uma geral na casa, porque estava tudo sempre tão bagunçado, e só pararia quando visse as pessoas chegando. Juliana, a irmã, provavelmente viria com o namorado e ficaria num canto do sofá, olhando as coisas como se não estivesse ali. Os amigos chegariam com flores, com bebida, e se bobear, com maconha. Ela tinha dito que era uma festa familiar, que não queria ver um sinal de back naquela casa, mas ia ser difícil. Aliás, precisava tirar o resto da maconha que tinha deixado em cima da pia do banheiro - o melhor lugar pra dexavar. Se Luiz visse, ficaria uma fera. Este era outro também, que logo, logo deve estar batendo na porta, pontual do jeito que ele é. Com certeza ia reclamar do trânsito, tentar transar com ela em cima da mesa da cozinha, ou de qualquer outro canto da casa, porque ainda estava cedo, sempre há tempo para uma rapidinha, se recusaria a usar camisinha porque “fica muito apertado”, ela ia pegar a borrachuda feminina, ele ia dizer que não dava tempo, corta o clima, tal, tal, e se ela dissesse não, ele ia ficar com aquela cara amarrada a noite inteira. Roteiro conhecido.


O jantar estava todo terminado. A casa inteira perfumada de ervas finas e vinho, muito vinho. Durante a preparação ela mais tomou vinho do que usou, daí o molho que era para ser de vinho branco e alecrim se transformou em ervas finas com vinagre de maçã. Pelo menos estava tudo pronto.


Seguiu para o quarto com o resto de vinho numa taça de cristal. Ainda eram 7 horas e os convidados deveriam chegar só às 8 da noite. Foi ao banheiro, pegou o bagulho que ainda restava, não ia jogar fora, bolou, e acendou um pra relaxar. Colocou um jazz e ficou lá, jogada na cama, olhando pro teto e fumando maconha. Amanhã não estaria mais naquele quarto, nem naquela cama. Ia ser só um mês de férias, mas já era tempo pra burro, ainda mais pra ela, que a última viagem longa que tinha feito tinha sido quando completou 15 anos. A cabeça dela parecia um turbilhão, nem a mala tinha feito ainda, meu Deus do céu. Terminou o vinho, o baseado e foi pro banho.


***


O som rolava no rádio, enquanto ela lavava os cabelos. A roupa estava escolhida, em cima da cama. Um vestido de seda vinho, as sandálias pretas que usou no natal passado, e mais nada. Lingerie não tinha escolhido nenhuma, sutien não podia colocar, porque o vestido era totalmente aberto nas costas e calcinha, ah meu bem, pra que calcinha? Até o ginecologista já tinha falado pra ela que não era bom usar calcinha, e ela aderiu totalmente.


Vestiu o vestido, droga, tinha engordado e agora ficavam umas marcas na roupa – “Maldição, mas já era. Deve ser a larica de tanto back que eu tenho fumado. Porra de vestido justo também. E ainda tenho que colocar essa sandalinha, que dá ultima vez me deu bolha... Nossa, quinze pras 8 e nem maquiada eu tô. Preciso de mais vinho. Onde eu deixei o vinho?”


Correu pra cozinha, tomou um grande gole de vinho, fez uma maquiagem rápida, sombra colorida, baton, rimel. Básico. Arrumou os longos cachos, de uns tempos pra cá acobreados, e foi pra sala... O perfume, quase esqueceu. Faz tempo que usava o mesmo, já tinha virado quase supertição, tinha um cheiro forte e doce, muito doce, mas não enjoado - isto nunca.


Passou o perfume por todo o corpo. Apagou a luz. A campainha tocou.


***


- Oi amor, chegou bem na horinha, né? - o sorriso despontava amarelo nos lábios cor de vinho de Ciça.


Luiz entrou, desceu a mão pela cintura dela, como sempre fazia. Notou que, como sempre também, ela estava sem calcinha. Fingiu como sempre, supresa. Beijou o pescoço, e como sempre, a apertou com furia. Cecília, como sempre também, já sabia o que vinha depois. Com tanto vinho na sua corrente sanguínea, o tesão era grande, e ela foi logo abrindo o ziper da calça do malandro, que mais do que depressa já tinha sentado Ciça na mesa da sala e já estava mostrando serviço, como ele mesmo gostava de dizer. Pra acabar logo com aquilo, Cecília gemia no ouvido dele, fingindo gozar. Foi quando a campainha tocou de novo. Ótimo.


- Oi Mãe! Falei pra senhora que não precisava trazer nada, mãe. – arrumando o vestido e os cabelos.


- A filhinha é só uma maionese e uma carne assada. A gente nunca sabe se todos os convidados comem as coisas que a gente faz. Vou colocar lá na cozinha. Queridinha, a Ju mandou avisar que vai chegar mais tarde, ela vem com aquele namorado dela, não tem problema, não é mesmo? Ah, trouxe um bolo de chocolate com suspiros, que eu sei que você gosta e nunca consegue preparar direito, não é mesmo filhota?


- Nossa, em Cecília, este prédio tá cada dia pior, não é minha filha? Não tinha um lugar pra deixar o carro! É o fim da picada. Eu não me conformo com todos estes carros parados aí fora... você convida a gente pra jantar aqui e não tem lugar pra estacionar? Já falei pra sua mãe, esta é a ul...


- João, pelo amor de Deus, deixa a sua filha em paz.


- Não, mas Luiz você não acha? Que absurdo. Eu já nem vinha, porque toda vez é o mesmo inferno, mas tua mãe disse que você pediu muito...


- Amor, traz uma cerveja pra gente?!


As palavras entravam na cabeça dela como uma coisa mecânica, ela só concordava, ou sorria. De vez em quando falava alguma bobagem, alguma coisa do trabalho. A mãe agora percorria a casa, arrumando tudo, colocando os porta retratos no lugar, colando água nas plantinhas, ia acabar encontrando a carta na cristaleira antes de Ciça, e se bobear, era até capaz de ler. O pai e o Luiz tomavam um drink no sofá e falavam da corrida de formula 1 do domingo de manhã. A campainha tocou novamente.


Era a turma inteira. Como todos couberam no elevador é um mistério. Pelo o olhar, estavam todos limpos, que bom, pensou, menos encrenca com a família e o namorado. Logo depois, chegaram os tios, primos, a Ju e o namorado, todos. Até 9 horas já estava todo mundo sentado, ouvindo um som, jogando conversa fora e comendo torradas com patê de atum. O pessoal bebia bastante, e quando Maíra, a amiga com quem Cecília tinha morado há um ano e meio atrás, começou a querer desligar o som pra brincar de Karaokê, Cecília viu que estava na hora de servir a comida, um pouco de glicose atenuaria os efeitos daquele monte de álcool.


Antes que pudesse terminar de pensar em servir o jantar a mãe já tinha colocado a mesa completa. A tal carne assada esperava pelos convidados.


- Queridos, vamos jantar?? A carne assada esta deliciosa!!- disse a mãe.


- E aí Ciça, o que de tão importante você queria com este jantar?


- É mesmo, amor, você ainda não falou nada sobre o motivo deste jantar...


Antes mesmo que Luiz pudesse colocar o ponto final na sua frase, o telefone tocou. Era para ela. Os convidados continuavam na sala, comendo animadamente, enquanto ela ia atender no quarto.


- Olá Cecília. - Só pelo jeito de falar ela já tinha reconhecido a voz fanhosa do seu editor.


- Olá Marco, tudo bem com vc?


- Ótimo minha cara, recebeu meu telegrama?


- Telegrama? Não, não recebi nada.


- Então por isto que você ainda não me ligou. Bem, querida, antes mesmo que você tenha a dor de cabeça de colocar cem casacos na sua mala, e confirmar a passagem, estou ligando pra te comunicar que houve uma mudança de planos. Não faremos mais a cobertura do evento em Cannes, não haverá mais viagem e...


- Mas..


- ...então, vejo você na segunda feira bem cedo no escritório, ok?


Ela estava muda do outro lado da linha.


- O.k.


Como assim? Como assim antes de fazer as malas? E a passagem? Como assim? E as férias? Quem disse que o problema eram as malas? E os planos? Os sonhos? Como assim? Jogados?


Antes mesmo que desse tempo dos olhos encherem de lágrimas, voltou para o jantar.


- Quem era, filha?


- Ninguém importante, mãe. E aí? Gostando da festa?


- Você ainda não disse o motivo da comemoração.


- Então, vamos pegar mais um vinho, e eu falarei.


Seguiu pra cozinha, trouxe o vinho. Falaria o que o vinho mandasse.


- Luiz, resolvi fazer tudo isto porque gostaria de pedir você em casamento.


- Que? – Todos mudos, enquanto Luiz não sabia o que dizer. Na verdade nem Ciça sabia o que estava falando, mas foi a primeira coisa que ocorreu e ela só se deu conta do que falara quando ouviu a própria voz.


- E aí, vai ficar mudo?!


Luiz caminhou até ela, com os olhos mareados e deu um beijo terno em sua mão, dizendo um sim quase inaudível.


Depois disso a festa seguiu tranquilamente, todos muito felizes. Apenas Ciça conserva um olhar distante. Percorria com os olhos... da porta, até o banheiro, passando pela cozinha, pela sala, o som, a cachorra dormindo no canto da sala de tv. Casa velha e conhecida. Morada, porto seguro.


Aos poucos as pessoas forma dispersando, e um a um foram embora, ainda embasbacados com a história de Ciça pedir Luiz em casamento. Só ela não sorria. E logo, logo, se viu só, as voltas com a bagunça da casa.



Levantou-se do sofá, tirou a sandália salto 10, jogou num canto da sala. Mica quase acordou com o barulho do salto batendo no assoalho da sala, balançou o rabinho, e deitou-se de novo.


Respirou profundamente, olhou pro som, colocou Lenny Kravitz, pegou mais uma garrafa de vinho, procurou se ainda tinha bagulho, mas não achou nada. Não estava na fissura de ligar pro Tony pedindo maconha às 3 da manhã. O vinho dava pro gasto. Abriu a garrafa, deu um grande gole, sorvendo o máximo que podia, de uma só vez. Sentia o vinho descer macio pela sua garganta e desabar no estômago. Uma gota escorreu pelo canto da sua boca e pacientemente ela limpou a gotinha teimosa, nisso deixou que a garrafa escorregasse de sua mão e se espatifasse no chão, quebrando em mil pedaços. Os cacos estavam por todos os lados, e o vinho já tingia todo o sofá de vermelho.


Tentou juntar os cacos, conter o vinho, mas era tarde para conter. Era tarde. Tarde pra tudo. Jogou-se no chão, juntou-se aos cacos e ao vinho derramado, e deixou as lágrimas escorrerem quentes pelo rosto. Meu Deus do céu, que vida é esta? Que vida maldita é esta?


Do chão, avistou um envelope marrom em cima da cristaleira. Devia ser ele. Como não tinha visto antes? Com dificuldade, ergueu-se do chão, pegou o envelope, colocou junto ao peito. Abriu de uma vez só. No alto lia-se urgente, dentro o conteúdo já era conhecido, viagem cancelada. Em um movimento só, rasgou aquilo em cem pedaços e jogou janela a baixo.


Sentou-se na varando, olhando as estrelas. Um caco havia entrado na sua pele e ela via o sangue escorrendo devagar pelas mãos. Apertou fortemente aquele pedaço de vidro, e sentiu muita dor, dor, muita dor. Queria saber se estava viva, se ainda era capaz de sentir alguma coisa, se aquele corpo ainda era dela, se aquela vida ainda era dela, se ela ainda era dela.


Respirou fundo, levantou, seguiu para o quarto de dormir. Em cima da cama, a passagem que o boy tinha deixado na sua casa ontem, reluzia o dia do embarque: domingo, 25 de Março, 22 horas.


Ligou o chuveiro. Tirou a roupa. Entrou no banho.




A água escorria doce e lenta pelo corpo inerte de Cecília. As memórias lhe viam aos olhos a todo instante, e quando pensava na garrafa de Chatô que havia se quebrado, via seus sonhos boiando dentro do vinho, que agora tinha se esparramado pela sala. Meu Deus, que droga de vida é esta? era a frase que se repetia como um daquels mantras da aula de yoga.
***
Como de costume, na manhã seguinte Dna. Norma ligou querendo saber se a casa já estava arrumada, se precisava de ajuda. Igualzinho as outras manhãs, a secretária eletrônica denunciava que não tinha ninguém mais na casa, e como todas as manhãs, ela tentou ligar no celular, e igual a todas as manhãs, Cecília não atendeu, Dna Norma deixou um recado pedindo o retorno da ligação e foi tomar café... Como sempre, abriu a porta para pegar o jornal que já deveria estar lá, porém, diferente de todas as manhãs, em cima das manchetes calamitosas, reluzia um envelope vermelho, com os dizeres “a todos”, sem titubear, abriu a carta e leu:

“ Era uma vez uma menina que vivia numa terra muito longe daqui. Era uma menina doce, tinha uma vida boa, e até já era prometida a um tal de Príncipe Encantado. Numa certa noite, porém, a jovem garota teve um sonho. Sonhou ganhar o mundo e ao fazer isto descobrir a si mesma. E o sonho durou a noite toda e a manhã seguinte, e a outra noite, a outra manhã, e... Então a menina decidiu que iria procurar a fada madrinha e lhe pedir que realizasse seu desejo. Na manhã seguinte a menina foi lá, pediu a fada o que queria, e quando o pedido estava se materializando diante de seus olhos, a menina descobriu que tudo aquilo não passava de um sonho. Triste, correu para o coração da floresta, quando teve a sublime certeza de que não precisaria da fada madrinha para realizar seu desejo, faria isto por si mesma...Cecília."

***
Durante o banho Cecília chorou, e chorando teve uma idéia insana. Já era tarde da noite. Saiu do chuveiro depois de uma hora, sem lágrimas para secar. Tinha um olhar decido na face; colocou seu pijama e dormiu o sono mais profundo de toda a sua vida.

Pontualmente às 6 horas Mica estava abanando o rabo ao lado da cama de Cecília. Pontualmente às 7 horas Cecília levantou-se, vestiu aquele jeans velho, uma camiseta branca e pontualmente às 7:30 estava tomando café da manhã, e pontualmente às 8 horas já estava fora de casa. Mas pontualmente às 8:15 Cecília não chegou ao escritório. Cecília nunca mais chegaria ao escritório.

Firmou os passos, entrou no carro, dirigiu-se, rápida e insana, para a casa da mãe. No caminho não pensava em nada. Neste momento Cecília era só ação. Largou um bilhete em cima do jornal dos pais. Continuou, frenética, o seu caminho. Seguiu para a Barra da Tijuca.

Aquelas pessoas andando, carros correndo no fluxo contrário, contas a pagar, problemas a resolver. Nada mais afetava Cecília. Ela agora era menina, que descia do carro correndo, com sede de mar, areia e sol. Mergulhou na onda. Mergulhou. E naquela hora sentiu todo aquele torpor que vinha sendo sua vida nos últimos anos. Chega. Do torpor e desta vida, entediada... um amontoado de repetições, chega. Onde estava a vida da sua vida? Onde?

Deitou ao sol, calmamente... enterrou seu celular na areia. Adeus. Ainda se ouvia o som do toque, era a velha vida de Cecília q a chamava, vez ou outra, vamos menina, volte para o mundo real. Entregou-se ao sol e mais nada.

Deixou o sol secar a roupa, que colava na sua pele molhada. Levantou, e foi direto ao encontro do seu destino.


Menina-que-quer-ser-escritora.


Textoterapia cardíaca: A bicicleta da Mariana

Então a bicicleta amarela foi para oficina pela primeira vez! Mariana, dona da bicicleta, ficaria uma semana sem passear com as amigas! Teriam que achar outra coisa pra brincar.

Mariana era a mais nova da turma, cardíaca, há pouco tempo tinha feito uma cirurgia e finalmente podia brincar de bike sem se cansar nem mais nem menos que as outras meninas. Andava, andava, feliz da vida. Do alto dos seus 5 anos de idade, sabia bem o que significava poder andar de bike na sua breve existência conturbada. Digo conturbada porque criança com problema de coração, sabe, madura antes do que as outras frutas! Mas tem um lado bom, brinca de montão quando vai pra brinquedoteca do hospital e ganha presente à beça! Em compensação, sente dor pra caramba depois da operação. Dói mesmo, precisa de ver aquele monte de grampo dentro do peito da gente. Tem que ter coragem, viu?!

Agora, eu fico aqui pensando, o que será que os namorados vão achar quando ela tirar a blusa, lá pelos seus dezoito anos? Porque sabe, a pessoa cresce, o corpo cresce... a cicatriz cresce também. Bem, mas isto é preocupação pra quando a pessoa cresce!

A pessoa cresce! Frase boba essa, mas Mariana sabia bem o peso. Crescer era um sonho pra alguém que estava fadada a não crescer. Não viver. Ela então, agora pode dizer que vai crescer. Talvez não cresça. Talvez a Roberta também não cresça. Não faz mal. Agora ela é normal, tem perspectiva. Pode morrer amanhã tanto quanto a Roberta, a Juzinha e Carol. Não pode morrer mais que as outras. Agora pode igual e poder igual é um poder incrível! Apesar de que, não podemos negar, saber de tudo isso quando a gente ainda tem 5 anos é ser um poucão diferente das outras companheiras de bike, né? Mas, isso não importa. Quer dizer, importar importa, mas o que é isso diante de poder andar de bicicleta? Diante de um coração que bate, as vezes meio descompassado, mas que bate o suficiente pra dar pra andar de bicicleta com a turma de amigas? Diante de ter turma de amigas? Pois se este coração não estivesse aí não daria nem pra estar chateada por não poder andar de bike, porque a gente só chateia por algo quando a gente já experimentou, senão não faria diferença ficar sem a bike, pra quem nunca ficou com, não é mesmo? Seria apenas mais uma semana sem bicicleta, como as outras... Aliás, capaz dela nem quebrar, nunca teria sido usada mesmo!!

Agora é isto! Mariana vai ficar uma semana emburrada esperando sua magrela voltar do conserto! E como é bom ficar emburrada por isso!!!!

Casa

Então ela desceu as escadas, apagou as luzes e ficou ali, sentada no último degrau. Tudo escuro, silêncio, mãe dormindo, todos dormindo. Só ela ali, sentanda na escada. Ao menos esta hora podia ficar ali, sentada na escada sozinha, contemplando o nada, fazendo nada, pensando em nada ou em alguma coisa, se assim fosse, se assim quisesse, se assim acontecesse...

Casa estranha essa, pensava. Tanta gente que anda e que corre de um lado pro outro. Comida pra cá, pra lá. Aula disso, daquilo, palestras, linha, agulha, dr. disso, dr. daquilo, brinquedos que nunca tinha visto, gente que vem e fica um monte de tempo, gente que vem e vai logo, gente que vem só pra olhar, gente a sorrir e a cantar - tá vendo, vira até música!

Música de uma casa, mas não daquela muito engraçada, sem teto, sem nada. Música desta casa, pedaço de concreto, erguido nesta tal selva de pedra, com tijolos de vidro pra deixar o sol entrar e o pensamento sair, podendo andar por aí, a solta, a caça, a deriva. Casa com pessoas, de pessoas, para pessoas. Casa de coração, com coração, para coração de pessoas, com pessoas, para pessoas de coração.

Casa de amigos. De angustias. Casa de esperança. Casa de desespero. Casa de encontros e desencontros. Casa de pessoas de todos os cantos e dos cantos todos. Casa de coração feliz, triste, doente, apertado, amargurado, saudável, esquisito, apaixonado, saudoso, querido, esperado, novo, operado, deslumbrado, conhecido, antigo, preocupado, orgulhoso, alegre, do sul, do norte, nordeste, sudeste, que toma banho de rio, de mar, que nunca viu o mar, de sol, chuva, de brincadeiras. Enfim, coração destes que a gente tem no peito ... e que pulsam em compassos que as vezes fazem valsas, outras meregue, tango, rumba, maracatu, samba, minueto, rock, balada pra amar...

Casa-de-apoio, ela leu numa placa logo em frente a escada. E então, apoiando-se nos degrus, levantou, subiu pro quarto, cobriu a mãe, deitou e deixou que seu coração naquele momento, dentro daquela casa cheia de casas, soasse apenas uma canção de ninar.

F. L. - boa noite.

Bolha de Sabão

"Cada vez que respiramos, afastamos a morte que nos ameaça (...). No final, ela vence, pois desde o nascimento esse é nosso destino e ela brinca um pouco com sua presa antes de comê-la. Mas continuamos vivendo com grande interesse e inquietação pelo maior tempo possível, da mesma forma que sopramos uma bolha de sabão até ficar bem grande, embora tenhamos absoluta certeza de que vai estourar" (Shoupenhauer: 1969, vol. 1, p.311)

A Menina passeia pelas estradas, olha uma flor aqui, um pássaro ali, corre um pouco, ofega, descansa sentada perto de uma árvore de maçãs. Anda outro pouco, brinca com o vento, com as borboletas coloridas. E leva na mão sua bolha de sabão, que ela insuflou há muito tempo, lá longe... e desde então a carrega nas mãos. Com delicadeza ela a passa de uma mão para outra, jogando cuidadosamente. Brincando com a fragilidade e força daquela bolha, que ainda mantem-se translucida e brilhosa nas suas mãos. É sua eterna companheira. Aonde esta, a bolha esta. Sempre com ela, junto a ela. Sabe, isso as vezes cansa, chateia e então ela tem vontade de estourar logo aquela bolha chata, arremessar para bem longe dela! As vezes até faz isso, imagina só! E a bolha fica fraca, quase transaparente, parecendo que vai se dissolver no ar. Daí as vezes ela se apavora, com medo de ficar sem a bolha e corre logo a cuidar dela. Outras vezes, bem, outras vezes esta tão cansada que nem liga, imagina!

Dizem lá no vilarejo que ela mora, que todos temos a nossa bolha de sabão conosco. Alguns a carregam nas mãos logo cedo; outros só vão se dar conta dela mais tarde; outros podem nunca perceber que ela estava ali, só quando ela estoura; e outros, imagina só, brincam com ela como se ela nunca fosse estourar! Até parece!!! Todo mundo sabe que a única verdade imutável deste mundo é que todas as bolhas de sabão estouram um dia.

A Menina era uma dessas pessoas que logo cedo descobriu sua bolha de sabão. E mais cedo ainda descobriu que cedo ou tarde, ela se esvairia, transparente no ar. A Menina, na sua meninice, descobriu também que tinha que carregar a bolha com cuidado, pelos caminhos da vida afora. Jogar a bolha de mão em mão era até gostoso, mas sempre lhe lembrava que hora ou outra essa bolha ia estourar. E isso não era nada gostoso. Não era gostoso menina na meninice descobrir que hora ou outra a bolha estoura. Não era não. Deixava a meninice com um pouco de adultice, sabe como é? Fruta que madura antes no pé?!

Menina na meninice não entende bem essas coisas de bolha de sabão e de bolha de sabão que estoura. Porque menina na meninice sabe mais é que tem uma bolha lá, bonita, legal a beça, pra gente brincar a beça!! Quer mais é se divertir com ela, nem pensa que bolha de sabão pode estourar. Tudo pode acontecer, menos acabar a brincadeira de ser menina na meninice com bolha de sabão para brincar até láaaaaaaaa longe..... Mas essa Menina da nossa história era uma menina diferente, que já na meninice entendia tudo isso, que as vezes nem gente grande sabe! E por isso tinha horas que aquela bolha pesava um tantão assim, ô!! Então a Menina falava bem baixinho pra um ou outro que cruzava seu caminho: "Ajuda a carregar, ajuda?"

F.L.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Arquivo Inicial

Mudei de Casa!

Pra quem já acompanhou um dia, apenas mudei de endereço... a estética do blogspot estava mais interessante por hora, enquanto não encontro hora para por a mão na massa e criar um template mais pessoal... em todo caso, vou re-publicar alguns textos velhos, das minhas velhas andanças pelos blogs por aí!


14/08/2006


Vai entrando!Pode entrar! Isso, vai entrando, senta aí! Quer um chá, cafê? Pedaço de bolo, vc aceita? Sinta-se em casa, viu?!


Aqui é minha casinha, pequinina, casinha de bonecas, da árvore, mansão nos jardins... Minha casa, palco de sonhos, viagens, dramas, mentirinhas, mentirosas, causos, histórias, contos, recordações... Casa que vai se criando e recriando no tempo-espaço-vida.


Esta é terceira vez que mudo de casa. Já fui fada, já dividi uma casa com um mago e até bem pouco tempo atrás, ficava a portas fechadas. Agora decidi que não preciso mais ser fada, posso ser eu mesma, a Menina-Que-Quer-Ser-Escritora!


E daqui por diante, quero portas abertas para deixar o sol entrar...!


F. L. - abre a porta, mariquinha!


***


"SÓ ME ENCONTRO NA PALAVRA,
MINHA ÚLTIMA TRINCHEIRA"


Ruy Guerra


***

24/08/2006

Fragmentos da história da Menina

Menina-que-quer-ser-escritora. Filha da Mãe-que-queria-ter-escrito-um-livro. Menina que roubava os óculos da Mãe para ser inteligente. Menina que ganhou a máquina de escrever, Olivetti Bambina - branca e vermelha - antes dos 10 anos.

Menina que pediu a máquina porque já queria começar a escrever seus livros logo. (Apressadinha essa Menina!) Menina que escreve diário desde os 8 anos. Menina que escreve poemas e tem um deles num livro - agora falta plantar a árvore e ter um filho.

Menina que acredita em contos de fadas. Em fadas. Em fadas que não se casam com príncipes encantados. Casam-se com curingas, que repletos de encantos deixaram de ser príncipes e se tornaram curingas multi coloridos! Só um curinga poderia se casar com uma fada. E ousar chamá-la para o eterno. Que ousadia a dele! Ler nos olhos dela o que ela queria!

F. - quase um 1 ano de "feliz para sempre"

***

24/08/2006

Debutar

Reprise: Texto de 1 ano atrás...
Minha mão é tão pequena perto da dele. Muito pequena mesmo. Quando nos vi na tela da tv, percebi que, se mudassem o cenário, a festa bem que poderia ser de debutante... e no fundo, bem que era mesmo. Mas um debutante com outro sentido. A gente debuta tantas vezes na vida, não é? Porque, pensa comigo, debutar é iniciar-se, e a gente sempre tá se iniciando em algo novo na vida - se não está, deveria. Naquela dia que minha mão pareceu tão pequena, nós debutavamos... iniciando de mãos dadas o caminho q decidimos trilhar juntos!!

Mas eu, com mãos pequenas e rosto de menina- debutante- de- 15 anos, materializava também aquilo que o Aurélio descreve sobre a debutante: "mocinha que estréia na vida social". Apesar das mãos pequenas, do olhar de criança, foi naquele dia, e só a partir dele, que o meu mundo passou a olhar pra mim como Mulher. E agora, As Pessoas da Sala de Jantar me oferecem vinho tinto quando as visito. E deixaram de ser Pessoas da Sala de Jantar pra mim. Se tornaram apenas meus Pais.Mas isso é só um "debut" de uma longa conversa....

F.- há quase 1 ano autorizada para usar saltos altos

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25/09/2006

I´m colorblind MESMO

Já dizia a velha cúpula, a vida é sempre um pouco mais do mesmo, mesmo. Que se repete horas mais, horas mesmo, horas mais do mesmo. Mas sempre em ondas de torpor intenso - num paradoxo em que o torpor pode ser intenso. Ondas que vem, vão, vem e vão, invadindo olhos, boca, nariz, poros, vidas. Horas devastando, horas lavando, levando, levando-me. Me leva, então.
Repetições que se repetem e se sorvem a si mesmas mil vezes ao dia, mil dias por vez, numa liberdade poética insana, hiberbólica, pleunástica daquele MESMO.
E quando penso que estou enxergando cores no infinito, reflito no espelho e vejo que sou colorblind, seeing only coffe black and egg white. Trancada no escuro e fundo da alma, listening the fuking Tom Wats e me deixando invadir e possuir por um pouco mais do MESMO.
Mesmice, mesmificado, mumificante, mumificado. Trancafiado num círculo que insistosamente sempre volta ao MESMO lugar MESMO, e sempre me volta ao MESMO lugar MESMO.
E eu? Eu tenho medo do MESMO.

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27/10/2006

Ponto Dark

Pra ser a tal casa da menina-que-quer-ser-escritora até que ela anda bem vazia de palavras. Casa vazia. Menina-que-quer-ser. Palavras. Tudo assim, meio jogado, perdido, bagunçado, estilhaçado, fragmentado. Difícil juntar as palavras-frases-texto-e-ponto-final. Tudo esta difícil. Quase tudo. Menos ele, porto-seguro-para-dias-de-sol-e-chuva. Mas até dele esta difícil escrever. Esta difícil escrever. Esta difícil. Ponto.

As vontades que guardo na minha bolsa amarela sumiram. Na verdade ficou uma lá. Vontade de sumir. Assim, deste tom mesmo que você esta vendo. Dark gray. Pois é, eu sei, supresas na sala de jantar! Casa cor-de-rosa de menina cor-de-rosa também fica dark de quando em quando. Acontece que quando agora tem sido muito. E você sabe, não sou lá muito fã de somar o adjetivo dark com algum adverbio de intesidade. Dark já intenso o suficiente. Dark na casa-da-menina-que-quer-ser-escritora então, é ainda mais tenso/intenso.

A poética Dark sempre é mais bonita. Tem mais vida. Paradoxal? Não sei... Acho que aquela vida, sabe aquela? Sabe, eu sei... aquela que a gente sente se esvair do próprio corpo na hora que se questiona de que valem as horas (nunca se questionou? Sorte a sua.)... bom, esta vida aí, que escorre de você, toma corpo no papel e ganha VIDA com letras maísculas. Sempre que escrevo sinto este VIDA em letras douradas. Sempre que me perco, me acho por aqui.

Pois bem, a escrita me retoma e me retorna a mim (aos poucos, evidente). Assustado? É, meninas-cor-de-rosa-que-acreditam-em-contos-fada podem ser mais Darks do que você pensava. Mas eu avisei, a você e a mim, escrever de portas abertas e luz acesa implica em riscos: de você se assustar e eu, de ficar com medo de te assustar. Mas e daí, de que vale escrever? Se não vem das visceras?

E agora, fico aqui, sentada aqui na minha sala cor-de-rosa-dark-side-of-the-moon, enjoing my blood time. Pode fechar a porta quando sair...i´ll be ok.

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30/10/2006

Paisagem na Janela
By Milton Nascimento


"Da janela lateral do quarto de dormir

Vejo uma igreja, um sinal de glória

Vejo um muro branco e um vôo, pássaro

Vejo uma grade, um velho sinal

Mensageiro natural de coisas naturais

Quando eu falava dessas cores mórbidas

Quando eu falava desse homens sórdidos

Quando eu falava desse temporal

Você não escutou

Você não quer acreditar

Mas isso é tão normal

Você não quis acreditar

Que eu apenas era

Cavaleiro marginal lavado em ribeirão

Cavaleiro negro que viveu mistérios

Cavaleiro e senhor de casa e árvores

Sem querer descanso nem dominical

Cavaleiro marginal banhado em ribeirão

Conhecia as torres e os cemitérios

Conhecia os homens e os seus velórios

Quando olhava da janela lateral

Do quarto de dormir"

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30/10/2006

Me enamorei dos enamorados

Me enamorei dos enamorados. Assim, fácil assim! Me enamorei dos sorrisos escandalosos e contidos, que aos poucos iam revelando o desejo-beijo. E que delícia... o beijo demorou a acontecer. Adoro o tempo antes do beijo. Ali, da minha mesa, privilegiada, assistia a tudo: os olhos nos olhos que se derramavam opulentos, sedentos, incertos, mas certos dos desejos. Será que ele me quer mesmo? Dava para ler nos olhos dela. E seu eu beijá-la, será que ela vai aceitar? Ele dizia telepaticamente pra mim. E eu fiquei ali. Voyer. Deliciosamente voyer. Tanta, tanta sutileza que dava vontade de guardar num potinho, levar para casa e ir pegando de pouquinho todo dia.


E naquele instante derradeiro, como são os instantes de paixão, trocaram carícias derradeiras, de deleite e sutilezas, até que, então, sutilmente, enovelaram-se no seus próprios enamoramentos e renderem-se em nuvens de beijos. E até por aquele novelo eu me enamorei. Apaixonamente estes instantes que pulsam tanta vida. E então, posso dizer que foi mais que enamoramento. Foram musas. Eles foram minhas musas naquele instante. E quando vi, a inspiração começou a transbordar minha pele, minha alma e tive que começar a escrever ali mesmo, na mesa do bar. Diante dos olhos meus, dois olhos que se perdiam e não cabiam mais em si mesmos e de quando em quando explodiam em beijos ternos, calídos e desejantes, trazendo, então, para diante dos olhos meus, toda a sutileza da resposta "de que valem as horas?". E por um instante, desejei poder continuar a testemunhar vidas-em-desejo como estas.

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11/11/2006

I´ll be the knife of my life!

A vida de old man turned ninety-eight não precisa mais ter sentido, precisa? Ou será que a vida faz sentido em algum momento da vida? Imagina que, então ele won the lottery and died the next day! Isn't it ironic ... don't you think?

Algumas coisas simplismente não fazem sentido. Não fazem. Sentido. Fazem coisas. Porque well, life has a funny way of sneaking up on you!

E eu? Faço o que? A jornada do horói, procurando deixar de ser ten thousand spoons e me transformar em all I need, ser a knife da minha vida!Fê Lopes - And isn't it ironic... don't you think, a little too ironic... and yeah I really do think...


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15/01/2007
Saudades da bolha

As vezes, ele dizia a ela, o autismo é necessário. Não daqueles que não se conversa com ninguém, nem com-si-mesmo. Mas destes autismos-momentos-de-solidão. Daqueles em que falar com ninguém é uma dadiva. Encontrar ninguém. Esquecer q tem corpo, mente, braço, perna, boca, coração, sangue... Entregar-se a solidão solitária daqueles momentos vãos, que se abrem assim mesmo, como vãos... por onde passa o corpo, a mente, escorrendo gelatinosamente, longe dos olhos, mais longe ainda dos corações. O silêncio que se impõe na reclusão necessária da e para a alma. Momento do sem-sentimento. As vezes sentir se esgota, se enjoa, se entedia de si mesmo! E então nada mais delicioso que o torpor do nada, que adentra visceras, sem pudor algum, apagando todo e qualquer rastro de existência de qualquer coisa alguma. Só por alguns segundos mudos, em que o relógio parece não caminhar. Aliás, tudo parece não existir. Nem eu. Ou só eu, sei lá. Só por alguns segundos e então, tudo se (des)encaminha e se vincula aos seus sentidos, significados, sensações, emoções, voltando aos seus lugares mesmos, porém revigorados, oxigenados por este breve segundo de imensa-solitária-solidão-introspecção, que re-trazem vida a vida mesma e suas mesmices de sempre.
[suspiro]

F.L. - saudades da bolha...

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27/02/2007

Tenho medo do medo que dá

Caminhava, com aquele medo circulando nas veias - ou em rota de colisão. Sour pelo corpo cansado de tantos desejos fértis, suspirando e ansiando por serem fecundados no espaço derradeiro (porque estes espaços são sempre derradeiros!) do olhar. Desejos tão insanos que não invadiam apenas a sua mente, mas sim tomavam todo seu corpo, saindo pelos poros, se multiplicando loucamente pelo dna de suas células mais cardíacas, fazendo da sua respiração tropegos suluços, lampejos daquele pavor (delicioso) conhecido.

F.L. - Quem quer pactuar comigo?

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28/02/2007

Metade de mim é desejo

E no caminhar, ele se perguntava se serão dois olhos negros que lhe farão cruzar a divisa - novamente, mas dessa vez pra lugares nunca dantes navegados, por este corpo-alma-coração, que esta cansado das águas claras e calmas do leito deste rio em que deita sua existência, pedindo por se aventurar em ondas, maremotos sem fim absolutamente... Diz a si mesmo "metade de mim é desejo, a outra, nem sei...", e não se lembra mais se isto é frase de poeta, ou se é algo assim, deste seu velho coração, que pulsa uma metade desejo, e outra também.

F. L. - ninguém vai pactuar comigo mesmo?

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06/03/2007

Pena!

Que pena que dá da pena, que de tanta pena sente pena por si mesma. Uma pena. Mesmo (mais do)

F. L. - uma pena é só uma pena com pena...

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12/03/2007

Quer me conhecer?

"Quem ao poeta quer entender
a terra do poeta deve percorrer"
Goethe - sempre!


F. L. - viajante urbana


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14/03/2007

Sempre há tempo para Casimiro...


Hoje fiquei ali, olhando pelo vidro, aquele montinho de pessoas-meninas-pequeninas vestidas de cor de rosa, azul claro, lilás, tutu, coque e sapatilha. Mãos segurando na barra, de frente pro espelho, enquanto os pés passeavam pelo chão, formando pequenos compassos com as pernas pequenas. Depois sentaram neste chão, fizeram pose de borboleta e de longe se via as boquinhas "borboletinha, tá na cozinha, fazendo chocolate para a madrinha..."

Nostálgica lembrança de tempos de plié, demi plié, grand batiman (não me lembro como se escrevem estas coisas), piruetas, andeor, andedã, breu... Tempos nos quais eu sempre estava fora do tempo, fora da pose. Pé direito, dizia a professora, e eu levantava o esquerdo - até hoje. Este corpo, sempre neste seu tempo próprio-impróprio, habitando esta tal in-cordenação motora... este corpo, tão meu já era este corpo!

Gozado que as lembras não tem som. Era uma aula de ballet clássico, mas não lembro que som ela tinha. Lembro das formas que os corpos executavam. Ou que se rebelavam em executar. Ou, no meu caso, se esforçavam ao limete da exaustão em executar... lutando por fazer formas que não formatavam com meus movimentos-ritmo-coordenação - movimentos que não eram nem graciosos, nem não graciosos, apenas meus... singularmente provenientes daquela mesma pessoinha que não engatinhou, rolou pelo chão, sabe? Enfim, minha mémoria do ballet clássico é feita de imagens, desenhos, é coreográfica.

Aí, que saudades deste tempo em que o tempo não importava. Saudades daquela carinha curiosa, absorta no aprender dos passos e em mais nada. Tempo em que se conseguia habitar única e exclusivamente um único lugar - ou não, mas parecia que sim. Tempo em que ser menina era tão singelo, tão simples, tão tão. Eu sei, eu sei. Olhar a infância de adulto é esquecer que todo tempo tem suas angustias e que lá, elas também habitavam. Mas, que delícia que é, olhar pelo vidro, ser embalada pelos movimentos daquelas coisinhas pequenas e esquecer por um tempo desta teoria toda, e poder perder tempo com saudades das doces lembranças e tempos de dançar.


F. L. - num momento de puro Casimiro de Abreu

"Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
— Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado,
A vida — um hino d'amor!
Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minhã irmã!
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
— Pés descalços, braços nus
— Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar"

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30/03/2007

Revival
Pensei neste post que fiz em julho de 2002, num outro blog, qdo eu ainda tinha pseudonimo. Me deu vontade de ler novamente.

"Alguns insights sobre a transitoriedade do amor....

Amor não casa com a palavra obrigação. Muito menos obrigação de durar para sempre. Na verdade, amor não casa.

Se há obrigação, não há amor. E daí talvez dure para sempre...

O meu único compromisso é com a felicidade mútua, enquanto ainda sorvermos desta bebida mágica e deliciosa, enquanto ainda tiver deste elixir nos nossos copos, o amor será eterno, e maravilhoso... E ainda será amor... e será ifinitamente delicioso... infinitamente...

Lembro de um poema que eu li quando era garotinha, que tinha um trecho q dizia assim: "meu último amor eterno acabou ontem" . O amor nasceu para ser transitório. Porque o amor é humano, e o humano é transitório. Se queremos transformar o amor em algo estático, esvaziamos o sentido do amor, que nasceu para ser mutante, nasceu para ser humano, nasceu para ser...

A única certeza q tenho é a da minha existência breve e finita. Por que a certeza do amor seria diferente? A única certeza do amor é que ele acabará. Por que controlar o tempo do amor, se podemos vivê-lo o tempo inteiro? Por que controlar o tempo da minha vida, quando posso vivê-la? Por que controlar...?

Que me importa se vai acabar amanhã? Que me importa se vou acordar amanhã? Me importa agora. Já. E se agora estou aqui, estou plena. E quando digo que te amo, amo até o máximo que minha alma puder. Amarei vc eternamente por um minuto. E se no minuto seguinte ainda amar vc, será mais um minuto eterno... mas se não... Pra que querer saber quando, onde, como? Se ainda me preocupo com isto, não estou amando de verdade... quando amo, me perco num labirinto infinito... e tudo que não quero é ser achada... deixe-me amar, perdidamente, loucamente, apaixonadamente, vividamente... amar...

No calor da minha tempestade eu amo. Agora. Urgentemente. Eternamente.

Eu vivo. A vida e o amor. Até quando? Que me importa! Se posso fazer a eternidade a todo segundo, por que fazer uma vez só...? Todos os segundos, os segundos todos, preenchidos de vida... Eterno 60 vezes em um só minuto, DELICIOSAMENTE eterno em um só minuto...

Sininho - devaneios"

F.L. - na teoria tudo é mais bonito!

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31/03/07

Bem me quer, bem te quero!

Bem me quer. Mal me quer. BEM ME QUER!
Bem te quero. Mal te quero. BEM TE QUERO!

A equação do amor é está. Enquanto a balança ainda tiver mais bem me quer e bem te quero, ele continua a ser amor, feliz para sempre, cerquinha branca no quintal! E eu acho que já escrevi isto aqui alguma vez, ou terá sido no blog antigo? Enfim, um dia nós nos olhamos nos olhos e decidimos que queriamos ser felizes para sempre. Mas nunca dissemos que seriamos felizes para sempre todos os minutos da vida-para-sempre que decidimos viver. Felizes para sempre a gente tem que ser na maior parte do tempo. Em alguns momentos a gente briga, grita, bate porta, quer ir embora de vez, nunca mais olhar na sua cara... Ira, vontade de jogar tudo para o alto!

Afinal o que é o homem senão este ser dual, que cheio de paradoxos? Nesta equação da vida a dois somos humanos e não formúlas matemáticas, dogmas imutáveis... E os desejos são assim mesmo, caminham por caminhos que se desencaminham e encontram então novos caminhos... Nosso feliz para sempre se esvaziaria caso exigisse de nós sorrisos prozaquianos que não saem nunca da boca, e teríamos sempre que ser contidos, constantes, inertes, sempre iguais, sempre sorrisos, sempre doce.

Mas a verdade é que te olho. E então te vejo deitado na cama, descanso do guerreiro, companheiro de tantos vãos momentos vãos, de tantas delicias, tantas dúvidas, tantos amores, prazeres e afetos afetados... e lembro que costumava dizer muito antes de te conhecer que queria um amor bem grande, destes que dói o coração. E um homem que argumentasse comigo, quando eu fosse, igual bebe que coloca a mão na tomada para testar se iria levar um choque. Falava também que queria um homem que não fosse embora no amanhacer, mas que olhasse nos meus olhos e dissesse: "olha, nós vamos sofrer, vamos ter momentos difíceis, ou hora ou outra os castelos podem ruir, seja por minha ou sua causa, ou até mesmo pelo destino, eu ou você podemos querer desistir de tudo isto aqui, mas nem que seja por um segundo, eu quero amar você. Nem que seja para acabar daqui dois minutos, eu quero amar você, eu vou amar você, eu amo vc."

Este homem é você.

E enquanto os seus dois olhos negros estiverem nos meus dois olhos negros, e eu os achar os mais lindos que já vi, enquanto meus ouvidos ainda quiserem a sua voz deliciosa a dizer bobagens às 3hs da manhã, enquanto meus lábios ainda quiserem só os teus, eu vou bem te querer mais uns 100 mil eternos por segundo.


F.L. - o amor será eterno novamente, novamente...!

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19/04/2007

"Eu pressuponho que escrevo por sobrevivência.O texto me exaure até a asfixia plena.É sempre um óbito necessário".

Ézio Deda

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21/04/2007

O que você quer?


" Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas,
que já tem a forma do nosso corpo,
e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia:
e, se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos."
Fernanda Pessoa


Estar no mundo parece que nunca foi tão complicado como agora. E, apesar do sofrimento, tenho me esforçado para me manter no olho da complicação. Penso que é neste vão - enquanto abertura de pensamento - que posso transformar e resignificar coisas minhas, tão minhas que se agarram a mim com força, muita força e que se quero ser pessoa, preciso pensar sobre elas.

Já não sei mais nada que penso, que sou, que quero. As pessoas me acolhem ternamente, a mim e as minhas angustia, e angustiadas insistem em dizer faça isto ou aquilo, então eu me pego fazendo coisas - pq esta sou eu, repleta de fazeres, "se tem que fazer, vamos fazer". Fazendo muitas coisas, tomando decisões estéticas... e então, quando deito no divã e me entrego a mim, ela me diz que fazer coisas eu tenho feito e preciso mesmo fazer, mas e o que eu quero. Ponto final porque não sei como colocar uma interrogação nesta frase. Esta sou eu, repleta de fazeres e confusa em meus quereres e desejos. Paraliso. Parece, por um instante, que ninguém nunca tinha me perguntado isto na vida. Ressoa de tal forma que parece pedra que a gente joga na água. O que eu quero, o que eu quero, o que eu quero... e esta frase vai me perseguindo, pulando no meio de uma conversa fiada, na frente da minha máquina fotográfica, entre o beijo, no meio da supervisão, no meio da música, no meio do texto...

E você, o que quer?


F. L. - no duro processo de me tornar astronauta do meu próprio universo.

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07/05/2007

Dor


Ela passa a tarde em casa. Triste e em casa. Alguém disse que é uma grande mulher, mas melancólica, precisa brilhar mais. Dizem que um homem é mais elegante quando tem uma dor. Pensa que uma mulher também pode ser mais elegante quando tem uma dor. Mas é mais brilhosa quando não tem. A dor deixa opaco e cinza. Cinza é a cor da moda, ela pensa. Dor esta na moda. Todos hoje tem dores. Dizem delas aos 7 ventos. Mas dizer não é sentir. E ela sente. Sente que a tarde é muito mais gostosa quando não há dor nenhuma, nem grande, nem pequena. Se sente pequena, ela me diz numa ligação de final de tarde, destas despretenciosas que só quem sente dores numa tarde é capaz de fazer. Não me diz que sente dor, mas eu percebo pela sua voz e pelo seu olhar, que sinto pelo telefone. Conheço este olhar de corpo vago, procurando dono. Não me diz nada. Quer ouvir da minha dor e ver se assim, esquece da sua. Anestesia a dor do outro. Conheço ela faz tempo. Digo quase nada, mas o suficiente para que lhe aplaque a angustia que arde sem se ver. Então ela fala. Diz que hoje a única coisa que queria era uma fluoxetina e nada mais nos braços. Nunca tomou fluoxetina. Melhor assim. Dá prá idealizar quando não experimentou jamais. Imagina que a vida seria sem dor se ela tomasse fluoxetina. E se já tivesse experimentado e descoberto que de nada adianta mascarar a dor com química?? Que química alguma mascára dor alguma? Melhor assim, então. Fluoxetina é seu príncipe encantado. Seu feliz para sempre. Virá num cavalo branco, lindo, trazendo a felicidade total. Ausência de dor. Odeia segundas feiras. Na segunda sempre se lembra que tem uma dor pra carregar. E esta dor, esta dor pesa. Cansa. E fica lá, martelando. Todo segundo. Lembrando que ela existe. "Ei, menina, lembra, você tem uma dor! Não vai esquecer ela aqui, porque ela é sua". Cansa tanto, que ela só me diz que quer dormir. Falo que Ferenczi disse que "o carater insuportável de uma situação leva a um estado psíquico próximo ao sono, onde tudo o que é possível pode ser transformado da um modo onírico..." Ela não escuta. Não pode. Esta vazia, lembra? A dor deste tipo esvazia. No vazio o som bate pelas paredes e ecoa. Mas não ressoa. Não adentra, penetra, só passa. Como um zunido. Não sinto dó. Sinto dor.

F. L.
"Se ele me deixou, a dor
é minha só, não é de mais ninguém
aos outros eu devolvo a dó,
Eu tenho a minha dor"
(Marisa Monte/ Arnaldo Antunes)


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16/05/2007

Um cerveja, por favor.

Convido você pra uma cerveja hoje. Pensei numa cerveja, pq acho q o papo não é para chá. Fica a vontade, porque aqui em casa é assim mesmo, pode tirar sápato, pôr pé no sofá. Você, que vem aqui, passeia, senta no meu sofá, fica lendo meus manuscritos... então, você mesmo. Então, acho que não me expliquei direito... talvez não tenha dito, mas este blog é uma hipérbole e uma ficção. É, isto mesmo! Hipérbole porque é isso mesmo, um exagero, um execesso, no melhor que a liberdades poética possa me dar, no mais adolescente que isto possa ser, mais drámatico, mais emo, mais tudo de mais que isto possa mais. O que isto quer dizer? As vezes uma dorzinha, pode virar um caso de internação. Pq? Pq assim eu senti? Pq assim eu vivi? Pq assim eu quero que vc sinta? Assim eu quero que vc me veja? Sei lá. Por tudo isto. E por nada disto. Porque, no fim das contas, isto é uma ficção da vida real. E na ficção do meu egocentrismo, eu posso querer o que eu quiser. Assim mesmo, bem egoísta. Aí, que delícia!


Então é isto, só queria deixar claro a minha viagem. Que aliás, é pra isto que este blog serve. Pra minha viagem da minha cabeça viajante. Que é o que eu adoro compartilhar com você!


F. L. - ficção de si mesma

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12/01/2008

A COMPLICADA ARTE DE VER


"A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas _e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre. Os olhos não gozam... Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo."

Rubem Alves, 71, psicanalista, educador, escritor

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